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Acolhendo a Criança

por Marie T. Russell  

Traduzido por Lúcia A. Maranhão  

Muitos de nós passamos pela vida tentando ser melhores do que... melhores do que os outros, ou melhores do que somos, ou melhores do que já fomos. Guardamos na mente uma imagem de como "deveríamos" ser, de como a vida "deveria" ser e nos esforçamos para viver de acordo com esta imagem. No entanto, é apenas uma imagem. É uma invenção da nossa imaginação, ou da imaginação de outras pessoas.

Como o personagem de Bruce Willis no filme The Kid (O Menino), andamos pela vida tentando "conseguir" — conseguir mudar a nós mesmos, mudar os outros e mudar o mundo. Na superfície, pode parecer que isto é bom... afinal de contas, estamos querendo melhorar. Sim, mas a que custo? Não estaríamos tentando nos transformar em alguém que não somos? O Menino resume isto quando diz (e faço uma paráfrase) que o trabalho de seu eu adulto, um consultor de imagem, consiste em "ajudar as pessoas a esconderem o que são, para poderem fingir que são diferentes do que são".

Antes de tentar "melhorar" a nós mesmo, deveríamos fazer-nos duas perguntas: Estou tentando me melhorar porque eu simplesmente não tolero quem eu sou? Será que eu gosto tão pouco de mim mesmo que mal posso esperar para ser alguém diferente? Se for esta a razão que nos leva a participar de seminários de crescimento pessoal, ou a lermos livros sobre como nos tornarmos pessoas melhores, eu acredito que estamos começando do lugar errado.

Será que nós aceitamos aquilo que nos disseram (às vezes de maneira subliminar, às vezes às claras) durante toda nossa infância? Que nós não éramos bons. Quer éramos burros, feios, preguiçosos, vaidosos, que não servíamos para brincar com as outras crianças, que nunca iríamos chegar a ser alguém na vida, ou seja lá o que for... Será que acreditamos nestas palavras, ditas por um pai ou uma mãe confusos ou zangados, por um irmão inseguro, por um colega de classe inseguro e agressivo, por um professor exausto? Será que acreditamos nestas palavras e começamos a erguer um muro em torno de nós, para que os outros não mais pudessem rir de nós, ou fazer pouco de nós? Será que fechamos as portas do nosso coração, para não mais sermos vulneráveis, para não mais sermos feridos?

Quantos de nós não teremos selado as portas do nosso coração, prometendo a nós mesmos que nunca mais deixaríamos que os outros nos ferissem desta maneira? Quantos de nós não lutamos para "nos tornarmos" um sucesso, para poder "mostrar a eles" que estamos bem, que somos dignos de ser amados, que "valemos alguma coisa", que eles estavam errados na sua opinião sobre nós? Ou será que você tomou o outro caminho... o de aceitar o que "eles" diziam de você, sem nem ao menos se importar em tentar. Acreditou que não era digno de ser amado, que não tinha valor, que nunca seria alguém na vida... Por que precisamos voltar à nossa infância? Para dragar todos os acontecimentos dolorosos, para examina-los um a um, a fim de podermos enfrentar a dor? Pode ser que isto faça parte do processo, mas não é a meta final. É para que perdoemos a todo mundo do nosso passado? Ainda uma vez, isto pode fazer parte do processo, mas não é a meta final. É para podermos perdoar a nós mesmos? Mais uma vez, faz parte do processo...

A razão pela qual é importante para nós tornar a entrar em contato com a criança que nós fomos, é poder aprender a amar aquela criança, exatamente como ela era. Com sua língua presa, suas espinhas, suas bochechas gorduchas, ou seja lá o que for que você não gostava em você. Seja lá o que for que fazia você sentir que "não era bom o suficiente". Seja lá o que for que você foi no passado e pelo qual continua a se julgar, e a se esforçar para não deixar que ninguém o veja em você agora... Seja lá o que for que você foi, e que está tentando mudar agora. A meta de "voltar à sua infância" é poder finalmente amar aquela pessoa, aquele menino. O menino que estava simplesmente fazendo o melhor que podia, dentro das circunstâncias... Não importa que circunstâncias eram essas...

Se a sua infância foi mais-ou-menos, ou infeliz, ou mesmo feliz, há um fantasma em você que você vem tentando enterrar... e este fantasma é você mesmo.

Se não podemos amar a nós mesmos, se não podemos sentir amor e compaixão pela criança que fomos um dia, então estamos simplesmente tentando ser outra pessoa, alguém que não somos. É claro que cometemos erros, é claro que fizemos coisas estúpidas em nossa infância, é claro que não éramos perfeitos, é claro que muitas vezes assumimos a culpa por coisas que nada tinham a ver conosco... Não, não era sua culpa se sua mãe estava sempre de mau humor, ou doente, ou cansada, ou seja lá o que for. Não, não era sua culpa se seu pai tinha que ir trabalhar todos os dias para por o "pão" na mesa. Não, não era sua culpa se as outras crianças se juntavam num grupo e falavam de você, ou riam de você, ou seja lá o que for. Não era culpa sua! Simplesmente era o que era – uma experiência que você teve durante seu crescimento. E é só isso! Não foi "por sua causa" – não foi "culpa sua".

O filme "O Menino" nos estimula a encontrar a criança que nós fomos – não para muda-la, mas para compreender quem foi ela, para onde ela está indo, e onde ela verdadeiramente deseja estar. Será que ela realmente queria ser um alto executivo, que manda em todo mundo, ou ela simplesmente quer amar e ser amada? Será que o emprego de sucesso, a mansão e os carros de luxo a transformam num sucesso, e não no "perdedor" que ela sempre achou que era? Ou será que ela ainda é um perdedor, apesar de toda a pompa do sucesso? E seria muito tarde, na véspera do seu 40o aniversário, para finalmente aprender a ter uma infância feliz, bem aqui e bem agora? Será que ele pode "desenterrar" a criança que ele foi e finalmente deixa-la sair para brincar e, finalmente, ser ele mesmo? Finalmente viver para seus próprios sonhos e não para os sonhos dos outros?

Todas estas perguntas, e muitas outras, nós precisaríamos perguntar a nós mesmos. Se a criança que nós fomos aparecesse em nossa vida hoje, nos encontraria vivendo a vida que ela sempre sonhou? Ou seriamos ainda um "perdedor patético" a seus olhos, alguém que trabalha como um louco para se transformar em alguém que sabe que não é... tentando "ser alguém", em vez de perceber que já é alguém; talvez, o que precisemos de fazer seja descobrir quem é este alguém... Em vez de tentar criar do zero um novo "eu", ou de pensar que temos que "consertar" o atual modelo de quem somos, talvez precisemos desenterrar nosso eu "original" e ver quem ele realmente é e, finalmente, deixar que ele realmente seja quem nós somos...

Comentários dos Leitores

Artigo Original "Accepting The Kid" em www.innerself.com.

 

Quem é a Autora:

Marie T. Russel é editora da Revista InnerSelf (www.innerself.com) e das Páginas Amarelas do Natural (www.NaturalYellowPages.com). Ela também produziu, de 1995 a 1998, o programa semanal Força Interior, para a Rádio Southern Florida, onde focalizava a transformação e o religamento com nossa própria fonte interior de alegria e de criatividade. Você pode comunicar-se com Marie no endereço marie@innerself.com, e mandar seus comentários pessoais ou suas sugestões (em inglês ou francês).

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